Eduardo Manzano: um novo olhar para a arquitetura hoteleira
entrevista | Eduardo Manzano | por Elisangela Peres
De uma desacreditada vaga para s?timo lugar em designer de carroceria para o lugar de CEO do escrit?rio n? 1 em projetos hoteleiros do Brasil.
Quando come?ou a sua trajet?ria na arquitetura, Eduardo Manzano era um apaixonado. Por carros. Segundo o arquiteto que est? ? frente de um dos escrit?rios mais bem-sucedidos de S?o Paulo, o que ele queria mesmo era projetar autom?veis. A paix?o pela aerodin?mica, pelo desenho e sua usabilidade dos carros era o que o movia.
Obstinado e com uma forma??o bastante t?cnica, estudou desenho art?stico e pintura aos 9 anos e, posteriormente, desenho mec?nico e fez muitos cursos. Mas quando chegou o momento de fazer faculdade, ele n?o tinha muita op??o na capital paulista para seguir o seu sonho. Nos idos de 1980, havia poucas op??es de cursos de Desenho Industrial, que garantiam essa possibilidade em n?vel superior. ?Eu descobri que o que te habilitava a trabalhar nessa ?rea de design automobil?stico era engenharia mec?nica ou arquitetura. Como sempre fui ligado ?s artes, optei pela arquitetura?, comenta.
Infelizmente, o mercado de designers de carroceria (estilistas) n?o era muito competitivo. O aspirante a arquiteto, na ?poca, descobriu que s? existiam seis profissionais relevantes nessa ?rea em todo o mundo.? E apesar de ter talento para o desenho, um colega italiano n?o lhe deu muitas perspectivas. ?Voc? desenha pra caramba, mas dificilmente voc? ser? o s?timo?, lembra.
Paix?o de tr?s d?cadas – Mesmo com o obst?culo de n?o poder se tornar mais um dos poucos designers de carroceria no mundo, Eduardo viu a maravilha da possibilidade de ?unir o desenho do objeto com o uso e com gente dentro?, como ele mesmo relata. Quando arranjou um emprego de desenhista, algo que nunca tinha feito antes, se envolveu com o universo da arquitetura, onde permanece criativo e inspirado h? 35 anos.
O primeiro cliente veio com uma semana de formado, quando surgiu a oportunidade de fazer um projeto em Goi?s, na antiga Pousada do Rio Quente. E, desde fevereiro de 1987, o Rio Quente Resort ? cliente do EMDAStudio. A fideliza??o, desde ent?o, tornou-se um item fundamental em sua carreira. Ali?s, o Plano Diretor do Munic?pio, emancipado de Caldas Novas em 1989, saiu de suas pranchetas, em parceria com seu s?cio Carlos Mauad.
De l? para c?, o arquiteto ganhou envergadura e criou uma carreira s?lida.? Foi executivo de quatro grandes empresas que trabalhavam com design durante oito anos, a Escriba, a Forma, a Cer?mica Gyotoku e a Eliane Revestimentos, e foi diretor de escrit?rios de arquitetura internacionais por mais 15, sendo respons?vel pela elabora??o de projetos para as redes hoteleiras americanas e europ?ias Marriott, Hyatt, Starwood, Wyndham, Hilton, Campanille e Meli?.
Ao todo, em seu vasto curr?culo, j? re?ne 100 projetos ligados ? hospitalidade. Na verdade, 101, j? que o escrit?rio fechou recentemente mais um projeto em Sinop, Mato Grosso.
Atualmente ? Vice-Presidente de Planejamento Urbano do Instituto Smart City Business America e foi membro do conselho da Brazilian Hospitality International Conference – BHIC, al?m de ter sido coordenador dos projetos do Circuito de Pousadas Hist?ricas do Minist?rio do Turismo do Brasil. Ele tamb?m ? professor de Arquitetura Hoteleira do Istituto Europeo di Design e Universidade Roberto Miranda, e de Gest?o e Marketing para Arquitetos e Designers na Escola Superior de Propaganda e Marketing ? ESPM.
Nesta entrevista exclusiva para a Revista Decorar, Eduardo Manzano conta um pouco sobre seus projetos e carreira e, principalmente, como a pandemia afetou n?o s? o seu mercado, mas a ele pr?prio.
Qual foi o seu projeto mais marcante?
O mais marcante foi o retrofit do Hotel Nacional do Rio de Janeiro, de Oscar Niemeyer, em parceria com Marcos Leite Bastos. Era uma obra gigante de 80 mil metros com hotel, Centro de Conven??es e Torres de Apartamentos e um prazo bem apertado porque tinha que ser entregue nas Olimp?adas. Envolvemos uma equipe multidisciplinar gigantesca. Foi muito impactante, sem d?vida. A primeira vers?o do projeto de interiores ? a minha preferida, mas n?o menos querida do que a executada, mais conservadora, por outro lado, qualquer projeto do Rio Quente Resort, por uma quest?o afetiva, j? que ? meu cliente h? 35 anos (e isto ? para poucos), ? sempre marcante.
O setor hoteleiro foi um dos mais impactados pela pandemia da Covid-19. Os hot?is fecharam, muitos quebraram. O que muda na hotelaria neste momento? Como voc? analisa esse panorama?
? uma pergunta extremamente pertinente pelo momento que estamos passando. A pandemia nos impactou demais. Eu, assim como 99% da popula??o brasileira no come?o de tudo isso passou uma boa parte do tempo assistindo ?lives? ao estilo ?o mundo vai acabar?. E isso era muito deprimente. Que tudo estava ruim, eu j? sabia. Eu queria entender o que poder?amos fazer para reverter isso e o que iria acontecer na nossa profiss?o, nos hot?is, nos clientes, quando essa onda come?asse a passar e viesse a vacina. Me concentrei muito nisso. Participei de todos os eventos poss?veis fora do pa?s para entender como estavam as coisas nos escrit?rios grandes de arquitetura. Comecei a ver as dificuldades que um escrit?rio da Calif?rnia tinha para buscar amostras, se estava fechado e todos estavam em home office, por exemplo. Foi esse tipo de intelig?ncia que fomos buscar nos f?runs. Foi da? que vieram os convites para participar dos eventos na Am?rica Latina, representando a arquitetura do Brasil, sempre falando de hotelaria. Comecei a entender o mecanismo de marketing para ajudar o meu escrit?rio e investi toda a minha energia nisso. O melhor uso que podia fazer da minha experi?ncia. E deu muito certo. Investi em v?deos na internet, com uma grande quantidade de conte?do que coloquei sobre a retomada, sobre a pandemia, projetos, sobre ?continuarmos vivos?, e hoje somos o escrit?rio com mais projetos ligados ? hotelaria, em andamento, no Brasil.
Percebemos que os projetos de hot?is urbanos tiveram um grande impacto negativo. Por outro lado, como t?nhamos experi?ncia com resorts, por causa da nossa forma??o, vimos que o impacto foi positivo, se ? que podemos ver algo positivo nesta cat?strofe. Isto porque as pessoas come?aram a ficar obcecadas por sa?de, por sair de casa e elas aprenderam a conviver com a fam?lia e j? que os destinos tur?sticos tradicionais eram longe e n?o havia voos, o turismo rodovi?rio virou a t?nica. Se voc? somar tudo isso, ?vira? um resort perto dos centros urbanos. E esse mercado explodiu. Principalmente olhando para um sistema cuja caracter?stica ? ser na modalidade de ?multipropriedade?, que ? um h?brido do residencial, time-sharing e hotelaria. Houve esse boom e junto com a taxa Selic muito baixa, as pessoas come?aram a investir em tijolo e terreno, haja vista a quantidade de lan?amentos residenciais que aconteceram nos ?ltimos tempos. No entanto, esse movimento, para o residencial e para a hospitalidade fracionada, veio da falta de interesse nos projetos corporativos, porque as pessoas, por conta do isolamento, foram embora dos escrit?rios para suas casas. Um exemplo disso ? que, a casa, como ?lar?, passou a ser mais valorizada. Varandas gourmet deixaram de ser t?o importantes, dando lugar aos escrit?rios.
Quem aprendeu a ?ler? a arquitetura dentro dessas mudan?as, foram e s?o os escrit?rios que est?o performando melhor.
Voc? est? liderando um novo projeto no Sul do Brasil. ? uma nova parceria? Qual o ponto alto deste projeto?
Come?amos a entender o qu?o flex?veis pod?amos ser e propus ? minha equipe que fizesse parcerias. Hoje, meu escrit?rio tem parceiros em diversos lugares do pa?s como Foz do Igua?u (PR), Recife (PE), Sinop (MT) e Porto Alegre (RS). Desde ent?o, come?aram a aparecer projetos interessantes fora de S?o Paulo e temos cinco deles ?ongoing? somente em Foz do Igua?u. Dois s?o planos diretores ligados ao turismo, um hotel boutique de luxo, um open mall e um hotel em constru??o. Foz do Igua?u ? o segundo destino mais visitado do pa?s e esse hotel boutique, o SanMa Hotel, ser? inaugurado agora em setembro. ? um projeto fant?stico, com fornecedores locais e com tem?tica ind?gena. ? motivo de muito orgulho meu e de toda a equipe.
O ponto mais alto desse projeto ? o reaproveitamento do material que o antigo hotel j? tinha. Tudo o que era poss?vel, foi reciclado. Fizemos novas vers?es de m?veis de madeira maci?a encontrada nos antigo mobili?rio e estruturas. ? a sustentabilidade aliada ? sofistica??o. Tudo para criar uma experi?ncia ?nica para o h?spede.
Como voc? se mant?m criativo e inspirado?
Sou uma janela aberta, uma esponja que absorve tudo que v? – de culturas e de viagens. Quem quer trabalhar com arquitetura hoteleira tem que viajar o m?ximo que conseguir. Eu conhe?o muitos pa?ses, desde imers?es na hospitalidade japonesa at? situa??es delicadas em uma escala para Dubai. Na arquitetura n?o existe zona de conforto e eu nunca estive t?o criativo como hoje. Claro, tenho ajuda de uma equipe muito competente. Muitos deles s?o ex-alunos, que entendem meu caos interno criativo. Eu valorizo muito isso. N?o sou um ?arquiteto de Pinterest?.?Se a pessoa quer ser diferente, se ela quer trabalho, tem que sair da caixa. Eu sei que ? clich?, mas ? a verdade. Sen?o, voc? n?o sobrevive neste mercado.?Para quem est? estudando arquitetura ou design de interiores, ou se ? veterano, se atualize o m?ximo poss?vel em gest?o e marketing para arquitetos. Existem cursos importantes, que merecem aten??o. A arquitetura ? um neg?cio, ent?o o arquiteto tamb?m precisa se tornar um empres?rio.

Perspectiva renderizada do Hotel? no Hotel Boutique SanMa, em Foz do Igua?u.

Sustentabilidade ? aliada ? sofistica??o no Hotel Boutique Santa.

Os h?spedes poder?o saborear os melhores vinhos e ter uma experi?ncia do mundo da coquetelaria neste charmoso bar.

Os ambientes internos do Hotel Boutique SanMa ser?o acolhedores e aconchegantes.
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